quarta-feira, 18 de março de 2026

Sínteses XXVII - A ciência que descobre para encobrir o descoberto...

A ciência que descobre para encobrir o descoberto

Valdemar J. Rodrigues

Muitos vêem a ciência como bem abstracto e inquestionável. No entanto, por trás de grandes descobertas, existe um sistema de controlo e silenciamento que lesa o cidadão comum. Eis como funciona o ciclo que privatiza o conhecimento pago por todos.

1. O risco é público

A investigação de base — aquela que é mais cara, incerta e demora décadas — é feita quase exclusivamente em universidades e institutos públicos, financiada pelos impostos do "sujeito passivo". É o estado que paga os salários dos cientistas, os laboratórios e a infraestrutura.

2. Exemplos da perversidade à escala global

Na saúde: Grande parte das vacinas (como as da COVID-19) e tratamentos inovadores para o cancro foram desenvolvidos com milhares de milhões de euros de subsídios públicos. No entanto, as fórmulas exactas são protegidas por segredo industrial. O resultado? Muitos países não podem fabricar as suas próprias vacinas e os sistemas públicos de saúde (como o SNS) pagam fortunas por medicamentos cuja base tecnológica foi paga pelo contribuinte.

Na energia: Muitas patentes (e.g. de painéis solares de alta eficiência, novas baterias de Lítio) surgiram de investigação feita em laboratórios universitários públicos. Contudo, assim que a tecnologia se torna viável, é absorvida por gigantes da energia que impõem cláusulas de confidencialidade. O cidadão paga a investigação e depois paga faturas de energia elevadas para aceder a uma tecnologia que ajudou a criar.

Na tecnologia: Praticamente toda a tecnologia "inteligente" (GPS, Internet, ecrãs tácteis, Siri) foi inventada através de programas de investigação militar ou universitária financiados pelos estados. Hoje, as grandes empresas tecnológicas lucram biliões com estes inventos, mantendo o controlo absoluto sobre o software e o hardware através de segredos comerciais e patentes agressivas. Relativamente aos grandes data centers em cuja construção as ditas "gigantes tecnológicas" se vêm empenhando fortemente, ficam em regra para os "sujeitos passivos" a conta das "externalidades" ambientais, sociais e económicas desses mega-projectos "hiper-escaláveis", nomeadamente o necessário reforço das redes eléctrica e de abastecimento de água e a reconfiguração do dito "mercado de trabalho". Os benefícios numa vez mais privatizados, ao passo que os custos externos e os riscos ficam para o "zé"... incluindo o "zé pagante" da PME "digitalizada"... 

3. Duplo pagamento..

O "sujeito passivo" acaba por ser duplamente penalizado:

Primeiro: Paga os impostos que permitiram a descoberta original.

Depois: Paga preços inflacionados pelo produto final, porque a empresa detém o monopólio e o segredo sobre como ele é feito.

4. A falácia da "competitividade"

Os governos justificam este segredo em nome da "competitividade nacional". Mas a verdade é que estas empresas são globais: usam o conhecimento de um país, produzem noutro (onde a mão de obra é barata) e declaram lucros em paraísos fiscais. O benefício real raramente volta para a sociedade que pagou a conta inicial.

5. O silenciamento ético, político e da propaganda

Cientistas brilhantes são muitas vezes obrigados a assinar cláusulas de confidencialidade que os impedem de partilhar dados vitais. Isto trava o progresso da humanidade, pois outros cientistas não podem construir sobre esse saber, sendo forçados a "redescobrir a roda" com mais dinheiro público.

Reitores de universidades, directores de centros de I&D e cientistas em geral, governos, políticos (de um extremo ao outro), lideres de organizações multilaterais e supranacionais (e.g. UE, ONU, FMI) e meios de comunicação social parecem unidos no encobrimento e silenciamento destes factos. Uma vergonha portanto.

Sugestão:

Se houver um cêntimo que seja de financiamento público, o conhecimento gerado deve ser 100% público. O segredo não deve ter lugar na ciência paga pelos contribuintes. O "descobrir para encobrir" é uma fraude ao contrato social e à própria essência da busca pela verdade.
18 de Março de 2026

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