quarta-feira, 30 de maio de 2018

Das "crises" do estado-empresa e/ou da empresa-estado

O porquê da tão grande frequência (ou ciclicidade, como diria Karl Marx) das "crises" que o estado-empresa e a empresa-estado têm tido ao longo da história é talvez porque elas lhes são frequentemente úteis e necessárias; a razão dessa necessidade é talvez demasiado simples de compreender e, por isso, só alguns, certamente poucos, a compreenderão. 

Geralmente, como convém ao estado-empresa e à empresa-estado, as pessoas pensam que as "crises" resultam de uma  "escassez" - "escassez" que talvez não por acaso é o objecto de uma "ciência económica" - como aliás bem as sentem na sua (pequena) vida. Se lhe disserem que a "crise" se deve à abundância elas em regra não acreditam, pois não é isso que experimentam nas suas (pequenas) vidas, A "vida" do estado-empresa e da empresa-estado é, a contrario, grande; é, pode em rigor dizer-se, um "viver" na e para a grandeza. Então, e se a abundância, que a técnica com o seu condão de democratizar-se possibilita, fosse na verdade a grande alavanca das "crises"? E se a técnica aos poucos fosse permitindo a um cada vez maior número de pessoas "viver acima das possibilidades", como dizem os hipócritas e os ignorantes? Um "acima das possibilidades" que, prolongando-se, encontra boa recepção em canalhas, genocidas e assassinos de multidões, gente que o leva, como bem sabemos ou devíamos saber, ao limite do "imerecido excesso" de ainda estarmos vivos. A "crise" seria portanto o processo ou instrumento concentrador dessa fortuna (que usa a técnica a seu favor, pois a técnica é, como sabemos ou devíamos saber, moralmente neutra ou, por outras palavras e ilustrando, o cutelo da cozinha não é bom nem mau; ele pode é ser usado para esquartejar um frango ou uma pessoa). Ora, parece-me que é isso precisamente que as "crises" geralmente são, em especial quando é o grande estado-empresa ou empresa-estado a anunciá-las ou a dar conta delas.

Por "crise" entenda-se então: o juris-mergulho (do "pato de Goethe") e (re)concentração da fortuna. Juris-mergulho porque, a haver ou sobrar ainda alguma lei capaz de eficazmente proteger da infinita ambição do grande a ambição do pequeno-que-caminha-para-médio, ela tende rapidamente a esfumar-se ou, como dizem, a perder o seu efeito). "Crise" é assim um baralhar e dar de novo, mas sempre, para uns poucos, a multiplicar por muito. Depois das "crises" as Cocktail do tempo, como valquírias, haverão uma e outra vez de cantar aos mortos: "O que passou passou..." 

A próxima "crise", parece, está já aí à porta. A "itália" ("napolitanos" incluídos), o "brexit", os "ciberataques", a "rússia", as "coreias", etc. etc., - um infindável rol de juris-conceitos são, uma vez mais, de primordial importância no vingar psicológico ou, talvez melhor, "psiconómico# da "crise". Psiconómico porque, muito provavelmente, a única ciência que a economia tem é mesmo a psicologia.

Referências
aqui e
aqui.

terça-feira, 29 de maio de 2018

A minha "Alma mater"



Das liberdades de pensamento e de expressão

Há a liberdade de expressão e há a liberdade de pensamento.  São liberdades essencialmente distintas apesar de a primeira subentender a segunda; porém, na verdade, a primeira só faz sentido na presença da segunda. Sem liberdade de pensamento as pessoas hão-de expressar, ou seja, hão-de falar e escrever sobre o que lhes é dado a pensar, e quando lhe é dado a pensar. No limite as pessoas serão meras caixas (vazias) de ressonância de um pensamento único que prevalece e domina. Pode de facto haver liberdade de expressão e não haver liberdade de pensamento. Ter liberdade de pensamento significa: poder pensar o que se quer, quando se quer e da maneira que bem se entende. Só cada um individualmente pode medir o quão livre é realmente de pensar.

sábado, 28 de abril de 2018

O "vestir-se" milenar das bibliotecas

Sócrates não gostava de livros, e na Academia de Platão não havia biblioteca. Mas tudo mudou com Aristóteles, um apaixonado por livros: no Liceu havia-os em abundância, e até "sebentas"... Nas bibliotecas, privadas ou públicas não importa,  há como um "vestir-se" para  poder "ser", um "mostrar-se" por detrás da armadura do "poder-saber".  Muitos "inteletuais" gostam de falar ou de se fazer fotografar diante de estantes com livros: é dos livros que a sua "autoridade" promana, e é nos livros que ela anseia por eternizar-se. Os livros são o fundo que reveste e autoriza; são o saber calado que dispensa dialéctica e aclaração. Falar diante de livros é como agaloar uma farda; é o gesto belicoso de mostrar-se sem necessidade de explicação, pois autoridade que é autoridade não tem de explicar-se, ou sequer de ser compreensível. O  "povo" acostumou-se por isso a dizer:  «Eles é que sabem; eles é que têm os livros». Tudo velharia com mais de 3000 anos; nada de novo sob o céu, portanto.

Imagem tirada daui.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Da cultura

Foto: daqui

Do advento da escola-cultura e da sociedade pastoril

Imagem: daqui

Sucedeu que no dia seguinte Moisés se sentou para julgar o povo, e o povo manteve-se de pé na frente de Moisés de manhã até à noite. O sogro de Moisés viu tudo o que ele fazia pelo povo e disse: «O que é isso que tu fazes pelo povo? Por que razão te sentas tu sozinho, e todo o povo fica junto de ti de manhã até à noite?» Moisés disse ao seu sogro: «É que o povo vem ter comigo para consultar a Deus. Quando há alguma questão entre eles, vêm ter comigo, e eu julgo entre um e outro e faço-lhes conhecer os preceitos de Deus e as suas instruções.» O sogro de Moisés disse-lhe: «Não está bem aquilo que estás a fazer. Com certeza desfalecerás, tu e este povo que está contigo, porque a tarefa é demasiado pesada para ti; não poderás realizá-la sozinho. Agora, escuta a minha voz; vou dar-te um conselho, e que Deus esteja contigo! Tu estarás em nome do povo em frente de Deus, e tu próprio levarás as causas a Deus. Adverti-los-ás dos preceitos e das instruções e dar-lhes-ás a conhecer o caminho que devem seguir e as obras que devem praticar. Escolhe tu mesmo entre todo o povo homens capazes, tementes a Deus, homens íntegros, que odeiem o lucro ilícito, e estabelecê-los-ás como chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de dez. Eles julgarão o povo em todo o tempo. Toda a questão que seja grande, eles a apresentarão a ti, mas toda a questão menor, julgá-la-ão eles mesmos. Torna assim mais leve a tua carga, e que eles a levem contigo. Se fizeres desta maneira, e se Deus to ordenar, tu poderás permanecer de pé, e também todo este povo entrará em paz nas suas casas.» Moisés escutou a voz do seu sogro e fez tudo o que ele disse.

Êxodo 18:13-27

domingo, 8 de abril de 2018

Coisas passadas II - Da aparente dicotomia esquerda/direita

Em que estás a pensar? - insiste o "bufo amigo"...

Ora, em que a dicotomia esquerda/direita não é totalmente falsa; em que a sua falsidade só advém quando se admite que há um "ser de esquerda" e um "ser de direita", seres que, na realidade, inexistem, porque o ser tem geralmente duas mãos... Por outras palavras, o mesmo ser pode hoje "tocar" à esquerda e amanhã à direita. De quê? - perguntar-se-á então. Ora, do poder fáctico, que é aquele que está e legisla. E o que significa isso? Ora bem, o que posso dizer é que, se estar à "esquerda" é não estar com tal poder, é não "dançar" com ele ou deixar-se embalar pela sua (sempre) celestial música (numa palavra: é não gostar dele), então devo confessar que sou incomparavelmente mais vezes de "esquerda" do que de "direita"... Há porém quem faça das coisas outra ideia.

Coisas passadas I - Da falsa dicotomia público/privado

Em que estás a pensar? - pergunta o bufo.

Ora, em a falsa dicotomia público/privado. Em que se há o público amigo e inimigo do privado, tal como o privado amigo e inimigo do público, então o público inimigo do privado não vinga, pois em pouco tempo fica sem o sustento, e o privado inimigo do público também não, pois em pouco tempo fica ilegal ou leva com os canhões em cima. Sobram então o público amigo do privado e o privado amigo do público, que em pouco tempo se tornam indistintos.

terça-feira, 3 de abril de 2018

"Expetável" e perfeitamente normal...

... a posição do chamado "governo" do Portugal em relação aos "vínculos laborais precários" (ou, em rigor, não-vínculos, e logo não-laborais) dos chamados "professores" do também chamado "ensino superior"...

Após décadas em que se aceitou a absurdidade jurídica do "trabalhador independente" e se achou normal haver universidades a funcionar sem trabalhadores - estou a falar, é claro, sobretudo das ditas "universidades privadas", tal como dos "privados" institutos - ou seja, décadas durante as quais ninguém viu, ou quis ver, o elefante que estava na sala, é normalíssimo que o "governo" faça o que faz, em particular que prioritariamente considere "trabalhadores" o chamado pessoal não docente. Era assim nos ditos "estabelecimentos de ensino", onde não havia na "realidade", i.e., de acordo com a verdade das verdades (a "verdade de estado" ou "jurídica"), "trabalhadores", apesar de toda a evidência demonstrativa do contrário. "Trabalhadores" eram apenas o pessoal auxiliar - secretariados, contínuos, seguranças, pessoal das limpezas, etc. - mas não da "universidade": o patrão era a  empresa, ou seja, a "entidade instituidora" ou "titular" da "universidade" ou do instituto....

O acontecido dá razão ao proverbial "Colhemos aquilo que semeamos" ou, neste caso. aquilo em que consentimos que fosse semeado e, nesse exacto sentido, "ajudámos" a semear...


Agora, como diria o outro, agarrem-se ao pau e continuem mas é a pagar a quotazinha mensal ao "sindicato"... e todas as outras taxas e taxinhas à grande empresa-estado, à que se quer imortal, omnisciente, omnipresente, soberana, etc., tal qual a Google, o Facebook, a Mercedes, a Microsoft, etc.


sexta-feira, 16 de março de 2018

Diário da minha vida digital - VI

x = x  x x 
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terça-feira, 6 de março de 2018

Lema da "Economia circular"

"Comerás o oceano de plástico e todo o lixo tóxico (e nem tanto assim) dos conglomerados económicos globais (estados-empresa e empresas-estado) e, para cúmulo, pagarás por isso!"

Tudo será, como sempre, legal. Legalíssimo. Ou não tivesse o apoio dessa maravilhosa "ONG" chamada BSCD, onde podemos encontrar caras lindas, como esta que aqui ponho do bacharel Daniel Pinto, homem devidamente supra-nacionalizado (a nacionalidade do Daniel não aparece no texto de apresentação do WBCSD - o que é estranho, eles que gostam tanto de "nacionalidades", nomeadamente para o cálculo das "emissões nacionais", etc. - mas, dado ter-se bacharelado na Universidade de Lomas de Zamora, em Buenos Aires, supõe-se que haja sido, noutra encarnação talvez, argentino), posto à frente de negócios que, segundo as más línguas, levaram à "crise" financeira e, logo a seguir, económica, global de 2008. "Crise" que foi, como sempre desde Moisés (pelo menos), para a maioria das ovelhas, em especial para as mais perigosas. As tais das ditas "classes médias" (que designação horrorosa...) Pois os "pastores" dos cumes cimeiros são gente fina; gente já dispensada de "ajoelhar" e que "benze" ao invés de ser "benzida". (será que foi deles que Platão falou?).

http://www.wbcsd.org/Overview/About-us/Our-team/ExCo/Daniel-Pinto
Fonte: WBCSD, aqui.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Lema da "Internet das Coisas"

Se todas as coisas na tua vida estiverem bem, então tudo estará bem;
Se uma coisa não estiver bem, então nada funcionará como deve ser!

Explicação:

No "maravilhoso" mundo digital do futuro, aquele mundo que o estado total e a grande empresa económica há tanto tempo sonham, aconteerá, por exemplo, que a máquina de barbear poderá ficar bloqueada se o "sujeito passivo" não tiver pago o IMI, ou a torradeira poderá deixar de funcionar se o "utente" do SNS faltar à sua consulta trimestral de obesidade. É claro que se o devedor falhar com as prestações do carro ou da casa eles e tudo o que houver de dentro deles, incluindo a cama, deixará de funcionar. A única excepção vai ser talvez o serviço de comunicações, pois de cada vez que ligar a Televisão ou aceder à Internet o(a) faltoso(a) será de imediato alertado(a) para as coisas burocráticas da sua vida que não estão bem, ou estão em incumprimento. No futuro ainda mais lá para a frente é possível que a vida do "cidadão-utente" e "sujeito passivo" seja tratada globalmente como um organismo: se houver algum órgão ou subsistema em situação irregular todo o organismo ficará comprometido e nada funcionará. Para que a vida funcione vai ser preciso que nela TUDO esteja bem, isto é, devidamente "regularizado". 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Do futuro que aguarda pelos jovens

É bonito mas encalhei nesta parte: «[...] para que os jovens possam enfrentar com garantias o futuro que os aguarda.» Ou seja, há um futuro que espera os jovens e não jovens que são o futuro? O que terá acontecido? Deve ser da minha velhice, ou então do meu copo meio vazio.

  Fonte: aqui

Parece haver, de facto, um futuro que aguarda pelos "jovens", e que passa por coisas como essa misteriosa "universidade sem professores" - vejam o vídeo a seguir onde, a certa altura, o locutor diz que os "professores" são quem propõe os "projetos" que os alunos, em grupo, sempre, irão desenvolver... afinal há ou não há nela "professores"? A maiêutica tem destas coisas; quando se dá à luz já não nos podemos permitir o luxo do engano.  Digo-vos o que aprendi: na cultura há muito que o mal vem de pantufas e o maior mal geralmente pelas melhores razões. Boa noite.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

O "professor-investigador" intermitente


Fonte (imagem etexto): aqui

ὁ δὲ Ἰησοῦς ἔλεγεν Πάτερ ἄφες αὐτοῖς
οὐ γὰρ οἴδασιν τί ποιοῦσιν

Lucas, 23:34


O "professor-investigador" intermitente, do “privado” ou do “público” não interessa – o "deus mortal" e o seu braço "secular" sempre caminharam juntos – é aquele que “leciona” a cada semestre as “cadeiras” que a necessidade ou a “razão administrativa” impõem; num semestre pode "lecionar" três "cadeiras", noutros uma e noutros até nenhuma, com a originalidade de poder a cada semestre "lecionar" "cadeiras" que nunca "lecionou", e deixar de "lecionar" as que já "lecionava". O "professor-investigador" intermitente nem é nem deixa de ser, mas curiosamente está sujeito às mesmas regras de “avaliação” e “auto-avaliação” dos seus colegas "sérios" e "permanentes”, o que significa que é um “professor” em vias de extinção, ou em liquidação após o saldo dos mestrados e doutoramentos em regime low-cost, para orgulho das "tias". A “Oniversidade” de ciências “puras” ou “aplicadas”, tanto faz, caminha há muito para aquele sítio que já se sabe: o da “ignorância qualificada” que sempre conveio ao poder dominante, e sempre para tal contando com a ajuda do seu “corpo docente”, um "corpo" ciclicamente dividido entre o "humanismo" e a "canibalização", ou seja,  entre a ajuda ao "professor-coitadinho" - o que não tem como matar a fome do semestre se não estiver ligado a um "projeto" ou não tiver umas horitas por semana para "lecionar" - e o "castigo" ao "professor-mau", o "rico" ou "aposentado" (para não falar do "crítico" que faz demasiadas perguntas) que ainda consegue, ou dá ares de conseguir, matar a fome sem ter de "lecionar". O "professor-investigador" intermitente, apesar da intermitência, é coisa doce para as estatísticas do desemprego: basta estar “coletado” na CAE “professores” para já não ser um temível – porque a-social  “doutor desempregado”; se “produzir” por semana duas ou três horitas de “lecionação” tanto melhor para a "economia nacional" que assim, com mais uns cem euritos por mês sujeitos a IRS, há-de "crescer" mais. O "professor-investigador" intermitente está “socialmente” obrigado a vestir-se bem (ou cuidadosamente mal), a ter bons modos e a dominar as tecnologias de “ponta”, ou mais modernas, sendo muito arriscado, por exemplo, fazer-se transportar em veículo próprio com mais de 5 anos de idade. Deve anualmente, sob pena de má avaliação, publicar artigos nas melhores revistas científicas mundiais, contribuindo assim para o "pügresso" da ciência e da técnica mundiais e para o "prestígio" científico do seu querido país. Deve ser um eterno "jovem" mas, ao contrário dos jovens, está proibido de dizer asneiras  como merda, caralho e foda-se – porque, “óviamente”, não é isso que a “sociedade” nem as boas “famílias” esperam dele, de um “senhor professor doutor” do ensino “superior”. Tem de ter sempre as botas engraxadas e deve lavar as mãos antes de ir para a mesa. A ele estão vedados os vícios e as paixões dos comuns mortais: um “cientista” não fuma, não cospe para o chão, não vê pornografia sexual (quanto à intelectual é obrigado a vê-la) nem pensa em homens ou mulheres nus para além dos seus legítimos. Deve olhar com respeito as “autoridades” e os seus “superiores hierárquicos” e não pode, "óviamente", dar-se à “liberdade de expressão” - dizer coisas como estas, por exemplo – uma vez que a “liberdade de expressão” tem, para o "professor-investigador" intermitente, severos limites que a "missão educativa" impõe. Recomenda-se-lhe pois “juizinho”, antes que os “donos” soltem os cães e o proscrevam publicamente: a multidão ignorante e faminta ama o sangue e o pelourinho, e nada melhor e mais instante do que um “professor doutor” amarrado ao pelourinho, para catarse dos “simples” e gáudio dos “puros”. São, no fundo, gajos que pensam que sabem alguma coisa quando, na verdade, o “povo” é quem sabe, além de ser quem mais “ordena”!


Fonte: aqui

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Eles sabem tudo e não esquecem nada

Eles sabem tudo; sabem que eu sei, e que os iludidos não sabem, os que eles alavancaram e que lhes foram tão úteis enquanto tantos como eu houve para, trabalhando, destruirem. Eles sabem que eles, os iludidos, nada sabem, apesar de Prometeu os haver insuflado de esperança, tal como a mim e aos meus irmãos em espírito, essa terrível esperança que ficou na caixa de Pandora, para gáudio dos deuses e alívio dos pastores de homens. Eles sabem que a ignorância nada sabe, mas esperam que eu, que aprendi e julgo saber o essencial, me vingue, pois a vingança, como escreveu o tal de Homero, é o mais doce dos sentimentos. Esperam que eu não corra a salvar os iludidos, porquanto sabem que eu sei que foram eles os autores materiais do crime que levou à desgraça. E que a sua hora chegou finalmente, pois há muito que ela chega sempre da mesma maneira: ao holocausto menor sucede o maior e a traição é a tábua da lei. Os iludidos acharam-se sábios e insubstituíveis mas afinal, como sempre sucede, não eram. Foram úteis enquanto houve trabalho para fazer; agora que o trabalho está praticamente concluído chegou a sua vez. Entretanto, como é habitual, endividaram-se e toleraram leis que os haverão de liquidar. É assim desde os tempos de Moisés, pelo menos. Eles, os homens de génio superior, sabem que a inteligência sempre foi um bem escasso, e mesmo que não fosse sabem, com Prometeu, que ela sempre cede diante da necessidade. Eles não esquecem a parábola de Zaratustra que vem no Ortogal, a páginas 95, nem a verdade de Lúcio Enobarbo, que na história ficou mais conhecido por Nero, esse insensível imperador que, segundo reza a lenda, se entreteve a compor com a sua lira enquanto Roma ardia. Eles sabem tudo e sabem que eu sei; eles sabem tudo e não esquecem nada. A menos que esqueçam o facto de não serem deuses, pois nesse caso a sua sorte é a mesma dos iludidos. Haverá já acima deles um génio mais sabedor e menos esquecido do que eles, um génio empenhado em destrui-los, e abaixo como sempre uma multidão de vassalos ignorantes dispostos a servi-lo.