domingo, 13 de setembro de 2026

Leituras do tempo DCCCXLIX – Mais uma pérola literária de Brás Cubas, defunto como euzinho para a história... mas todavia porém contudo (!) graçadéu ainda vivinho da silva...

 ... e porque pérolas dessas não devem ser "resumidas" nem reduzidas a duas ou três frases magistrais por norma arrancadas a ferros  ao texto (ou seja descontextualizadas), tomo a liberdade de transcrever aqui na íntegra o delicioso texto desse mestre herdeiro do génio lusitano que felizmente ainda assiste à grande literatura mundial... julgo que comparável ao do enorme Cervantes...

ÁLBUM DE GLÓRIAS

PRÉMIO WELLINGTON NA LATA: Mafalda Anjos, jornalista da massa falhada

Por

Brás Cubas

A morte concede isenção de impostos e níveis nulos de colesterol, daí que agora possa contemplar, sem perigo para as coronárias, um filet de bœuf en croûte nas redes sociais. Foi nessas buscas que me apareceu Mafalda Anjos, antiga directora da Visão e ex-publisher da Trust in News — esse redil de falcatruas e dívidas ao Estado e jornalistas da casa —, entregue aos preparativos de um belo naco de lombo, desses que não costumam entrar em casa pela porta dos fundos nem sair do talho embrulhados em papel de merceeiro.

Era mesmo para um Wellington. Detive-me. Há nomes que carregam uma biografia — e Wellington carrega uma batalha inteira. O duque venceu Napoleão em Waterloo e ganhou depois a rara fortuna reservada aos grandes homens: acabar transformado em prato. César ficou numa salada, Chateaubriand num pedaço de vaca e Wellington dentro de massa folhada. A História possui destas vinganças da cozinha.

Mafalda Anjos, por sua vez, conheceu também a sua Waterloo, embora sem cavalaria prussiana. Durante os anos em que dirigiu a revista Visão e exerceu funções de publisher da Trust in News, andou a esquartejar o jornalismo e a empresa acumulou dívidas, acabando mergulhada numa insolvência cuja sentença dispensou metáforas. A antiga directora, contudo, parece conservar intacto o apetite, faculdade que não deve ser confundida com o balanço patrimonial. 

Não lhe censuro o lombo. Seria mesquinho. Cada homem tem direito à sua posta e cada mulher à sua massa folhada. Um defunto, sobretudo eu, deve mostrar tolerância pelos prazeres dos vivos, porque já não os pode experimentar. Apenas me maravilha esta pedagogia involuntária das redes sociais: enquanto alguns antigos trabalhadores das revistas e jornais insolventes onde Mafalda Anjos meteu as mãos na massa aprendem a pesquisar os descontos das asas de frango, ela ensina a temperatura certa do forno.

Veio-me então à memória Maria Antonieta. A pobre rainha passou dois séculos acusada de ter recomendado brioches a quem não tinha pão. Talvez nunca o tenha dito, mas a História, quando encontra uma boa frase, procede como certos jornalistas diante de um comunicado: publica primeiro e verifica depois.

Mafalda Anjos tem, neste ponto, uma superioridade documental sobre a arquiduquesa: ninguém precisa de lhe pôr o Wellington na boca — foi ela própria que o colocou nas redes sociais.

Não se diga, porém, que Mafalda aconselhou os seus camaradas jornalistas que comandou a “comer bifes”. Seria historicamente abusivo, socialmente deselegante e, acima de tudo, gastronomicamente ignorante. Um Wellington não é um bife que se atira para uma frigideira: exige preparação, paciência, bons ingredientes, atenção ao ponto e alguma arte para impedir que tudo se desfaça quando chega a hora de abrir. Há que selar a carne, tratar dos cogumelos, envolver o conjunto e fechar bem a massa. Repare os leitores — e as leitoras menos prendadas — na ironia: certas receitas exigem aquilo que algumas empresas nunca conseguiram fazer às contas e certos jornalistas às notícias — preparar, verificar, fechar e apresentar sem que o recheio saia pelos lados.

Também me ocorreu uma reminiscência mais próxima. Ainda há poucas semanas, Mafalda surgia coberta de lama negra num spa algarvio, episódio que lhe valeu nesta casa o Prémio Pinóquio na Lata. A pele recebia então tratamentos que a antiga directora recomendava com entusiasmo, sabendo-se que a credibilidade não tem exfoliante conhecido que a repare. Agora saiu da lama e entrou na massa folhada. Há carreiras que se fazem por escalões; a de Mafalda Anjos avança por menus.

Enfim, entre a lama e o filet mignon reconheço uma coerência que seria injusto não louvar. Primeiro o tratamento exterior, depois a alimentação. Mens sana in corpore sano, diriam os romanos, embora desconhecessem o Facebook e tivessem o bom gosto de não filmar o jantar.

Fonte da imagem: aqui

Concedo-lhe, portanto, o Prémio Wellington na Lata, categoria “Que comam folhados”, composto por uma pequena estátua do duque de Wellington montado num boi, com Napoleão a segurar uma travessa e Maria Antonieta, ao fundo, perguntando se não sobrou brioche.

O júri, constituído por mim, deliberou ainda acrescentar uma faca de trinchar: é justo — depois de tantos cortes na Visão, Mafalda Anjos merece finalmente acertar num.

Adeus, e um piparote.

Brás Cubas



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