sexta-feira, 24 de junho de 2016

Momento de humor

Acho incrível haver "selecções nacionais" compostas só de homens, sem atenção da "União Europeia" pela manifesta desigualdade de género, e sem a denúncia e o bloqueio feroz da Catarina Martins. Mas pior ainda:


Aguarda-se a qualquer momento a detenção de Fernando Santos por suspeita de crime de sexismo! Em directo e com exclusivo para a CMTV!

Brexit e o nazismo cultural

Brexit: O programa austeritário segue dentro de momentos, doravante agravado, pois com a democracia não se brinca. Quem não aceita a auteridade a bem, aceitá-la-á a mal, e sempre com agravamento. Uma derrota para a criatura jurídica chamada UE, que é também vitória - pírrica, entenda-se - caso a criatura e os seus criadores e cuidadores aproveitem a ocasião, como é provável que façam, para uma vez mais atirar para os povos - e não apenas aos das ilhas britânicas - as culpada austeridade, por quererem chamar a si as rédeas do seu destino. A hipocrisia e o cinismo da criatura, bem conhecido e documentado,  não deixará de rejubilar com o apoio recebido na Escócia e na Irlanda do Norte, pensando já talvez em futuros alargamentos e novos arranjos jurídico-institucionais. Seja como for, não há dúvida de que os próximos anos serão imensamente trabalhosos para os arquitectos do Estado europeu, e em geral para as criaturas rapaces de orçamentos, públicos e privados, que, sob a forma de juristas, gestores, jus-economistas, etc., passaram a enxamear a vida e os negócios do chamado mundo desenvolvido. Tirando eles, que sofrem em abstracto pelo povo, os povos continuarão em concreto a sofrer, para o bem deles. 

Parece-me óbvio que nesta coisa dos referendos devia haver referendos de segunda ordem ou seja, referendos sobre o alcance, oportunidade e significado dos referendos, para que a liberdade das pessoas não ficasse sempre refém do livre-arbítrio das escolhas pré-definidas pela razão de Estado, após ouvido nos oráculos o respectivo segredoO que significa por exemplo «Permanecer na UE» quando verdadeiramente ninguém do povo faz a mínima ideia do que seja a UE, ou do que signifique pertencer-lhe? E não faz por ser ignorante, mas porque a UE tem o espírito e o condão de um grande Estado, projecto de criaturas iluminadas, mantido por iluminados pastores, para que os rebanhos sigam. 

O Brexit foi finalmente uma vitória para o nazismo que, enquanto doença das mentes colectivas, existe seguramente há mais de dois milénios.  O conselho a dar é: resisti, enquanto podeis. Eu cá vou resistindo como posso.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Noite rara de Lua Cheia em Solstício de Verão no Hemisfério Boreal

Foto: aqui. A crer na astronomia e na estatística, só daqui a 70
dos actuais anos da cultura teremos outra noite como esta. 
O que significa que, estatisticamente, 
eu já não verei outra assim.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Os descontentes do povo e os descontentes com o povo

Foto: daqui

Há duas espécies de descontentes em relação ao povo: os descontentes do povo e os descontentes com o povo. Nenhum deles acompanha o povo, e como ambos se auto-exilaram confundem-se facilmente. Mas há que saber diferenciá-los. Os primeiros não acompanham o povo porque o acham débil, presa demasiado fácil daqueles que sabem ser os seus maiores inimigos. Quiseram ser pátria, e por isso se viram forçados a abandonar a pátria dentro da própria pátria, como quem se afasta do pai mantendo-se ao alcance do pai, a poucas palavras de distância, por vezes à distância de um simples gesto de simpatia e acolhimentoSão auto-exilados que se endo-exilaramOs descontentes com o povo, diferentemente, não acompanham o povo porque já desistiram dele; porque algures na história ou no tempo acharam congénita a sua malformação; são racistas, no sentido em que acreditam que a cegueira, tal como a falta de gosto e a indisciplina populares, são coisas naturais e sem remédio. São auto-exilados que renegaram o pai porque sentiram vergonha dele, e porque não quiseram ser pátria, ou melhor, porque não quiseram dar à pátria uma segunda oportunidade, já não se pode acreditar neles, e muito menos contar com eles. Abundam agora mais os segundos do que os primeiros, ou talvez isso seja o que sempre aconteceu. Para desgraça do povo, está-se em ver. 

terça-feira, 14 de junho de 2016

Sigmund Freud (1856-1939)

Foto: aqui

Que tal uma leitura? Isto aqui, por exemplo. Enquanto o ar não aquece e a Lua enche?

terça-feira, 31 de maio de 2016

Do ser-aí do fascismo


Um comentário feito aqui, com louvor ao Jornalista Ferreira Fernandes

«A. Araújo parece-me estar certo; para mim, do que sei e aprendi, o fascismo é a doença mental do pensar colectivo, a neurose agravada que vê barcos salva-vidas com urgência em partir mas com a lotação já esgotada; que vê o mundo saturado de homens maus, inúteis e supérfluos; e que sente necessidade dos tais condomínios para manter o seu bem-estar e a sua segurança. O fascismo é assim a vontade colectiva de partir o mundo em dois, a vontade do puro preto e do puro branco com anulação de todos os tons de cinzento, o puritanismo, a jihad, a cruzada, o holocausto, a purga, etc. Muito bem, pois, FF, a sua exposição. Parece-me perfeitamente certa, além de indispensável aos tempos que correm.»

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Natália Correia (1923-1993)

Foto: aqui

Com a essência das flores mais coniventes
Na formosura, prepara o banho, Lídia.
Os anos murcham e só no corpo sentes
Quente e fagueira a passagem da vida.

Não digas, cética, que a carne é vã e passa
Desfeita em sombra, o negro rio. O Orco
Perséfone raptou rendido à graça.
Talvez no além precises do teu corpo.

Estima-o; e à beleza mais demora
Darão os fados na vida passageira.
Tépida a água, rescenda a musgo e a rosa.
De Paros seja o mármore da banheira.

Nua e rosada imerge na carícia
Emoliente da água perfumada,
E as folhas lassas dos membros espreguiça
Como uma humanizada flor aquática.

Não te esqueças porém de no amavio
Da água verter um brando óleo de malvas
Que te aveluda as coxas e mais brilho
Te dá ao polimento das espáduas.

E saindo do banho como a deusa
Sai, das macias ondas, nacarada,
Ergue-te para o amor, estátua de seda
Toda coberta com pérolas de água.

Por fim veste a camisa mais picante;
Com pó de ouro empoa o teu cabelo.
E vai para a alcova onde o teu amante
Te espera radioso e fiel como um espelho.

Natália Correia, O Armistício, 1985

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A questão geracional e o Portugal democrático

Mais um apontamento breve para memória futura. Em comentário a um texto do prof. João César das Neves no DN com o título "Os filhos da adesão".

«Estimado Professor, não aceito a sua visão agregada do mundo e da sociedade. O "nós" inclusivo que insistentemente usa nas suas crónicas ofende-me, para além do facto de neste artigo em particular me ofender porque ignora completamente a "geração" a que pertenço, enfiando-a no mesmo saco da geração que beneficiou das chamadas "conquistas de Abril", que alguns dizem ter sido mais as "reconquistas de Novembro". Mas adiante. Gosto mais dos textos na primeira pessoa. Tinha 10 anos em 1975, e com a idade que tenho, e a vida que tenho tido, a que geração acha que pertenço: à sua, ou seja, à que nas suas palavras «endividou e bloqueou a economia, deixando um país doente»? Não me meta por favor nesse saco, pois o senhor nasceu em 1957 ou seja, é mais velho do que eu 8 anos, ou seja, tinha 18 anos em 1975, que já era idade para ter juízo e, também, para integrar listas partidárias. Por favor seja honesto e não me tente apagar, e comigo a minha tal "geração" como se ela nunca tivesse existido. Isso de apagar "gerações" é tentar rescrever a história; é uma atitude própria de estalinistas, que julgo não ser o seu caso.» 

Valdemar J. Rodrigues 
19 de Maio de 2016

Da economia informal

Da economia informal – Parte I de II

Quando se fala de economia informal há que notar o ilimitado desse informal, onde cabe qualquer actividade humana não controlada pelo Estado. Ora, o Estado pode achar, por exemplo, que cortar as unhas ou ficar com uma criança à guarda é algo que exige qualificações especializadas, dados os riscos que a actividade envolve para a segurança, o ambiente, etc. As pessoas, que informalmente cortavam as unhas umas às outras, ou os avós, que informalmente ficavam à guarda do neto enquanto os pais iam trabalhar, passam a estar em situação de ilegalidade, a menos que façam as devidas formações e obtenham as obrigatórias licenças. É o que está a acontecer com a agricultura informal: os pequenos agricultores já têm de fazer um curso de formação para poderem adquirir uma embalagem de pesticida. Muitos não o farão, por razões diversas, incluindo a de acharem que o Estado não tem de meter-se onde não é chamado, e que seguramente não é ele quem melhor conhece, ou quer mais bem. aos pés da mulher a quem o companheiro gratuitamente corta as unhas, à criança com quem os avós ficam gratuitamente enquanto a mãe vai com o namorado ao cinema, ou à nesga de terra há muito cultivada para sustento da família. O facto de haver gratuitidade e trocas de bens e serviços sem intermediação do dinheiro – quando a troca não é possível no momento, a memória sempre funcionou como reserva de valor – é um benefício a considerar. Se há bancos bons e maus, certamente também haverá economia informal boa e má. A má passa pelos negócios das sociedades offshore, pela lavagem de capitais que, por exemplo, os negócios do futebol propiciam; pela excessiva informalidade com que às vezes o Estado trata dos negócios públicos, pela corrupção, etc. Para não dar tiros nos pés, o povo deve pois precaver-se contra as cruzadas do Leviatã contra a economia informal, em que o “informal” aparece como o mal a combater. Porque não há só uma economia informal boa: há também uma economia informal absolutamente necessária para a sustentabilidade e o bom funcionamento de qualquer sociedade humana. É a ela que se deve o amortecimento do impacto social dos históricos empreendimentos do Leviatã.

É normal os economistas reconhecerem, baseando-se por exemplo na análise de Pareto, a necessidade de alguma informalidade na economia. Presos que estão aos números – e muitos à crença de que nada há melhor do que eles, os números, para analisar e representar a economia – asseveram, por exemplo, que se a economia “paralela” descer abaixo dos 15% do PIB a economia estagna, ou que se subir para lá dos 25% o sistema fiscal corre o risco de colapsar. São análises úteis, potencialmente moderadoras do devorismo estatal. Mas são-no apenas potencialmente, pois têm limitações que os governos e as agências inter-governamentais podem não querer reconhecer – e geralmente não reconhecem. O que significa a persistência do risco de que o pastor-Leviatã, ameaçado pela fome, coma as próprias ovelhas, o que neste caso significa tanto formalizar quanto consentir na informalidade da economia para lá do que deve, para tal manipulando a seu favor, se o deixarem, os números e as análises económicas. A primeira das limitações advém do conceito de economia paralela, que muitos economistas e políticos preferem ao de economia informal (na prática, tomam-nos por equivalentes). Tal conceito sugere que a actividade informal tem geralmente paralelo na economia formal, e é a partir desse paralelo – e aqui tem-se a segunda das limitações – que os economistas valorizam monetariamnte os bens e serviços produzidos na economia paralela.

Da economia informal – Parte II de II

A metodologia de avaliação do peso da economia informal tem pois, pelo menos, duas grandes limitações: por um lado parte do princípio de que a actividade informal tem paralelo na economia formal capaz de proporcionar a mesma utilidade, satisfação, etc. e, por outro, assume que os bens e serviços dessa actividade têm valor de mercado, valor com base no qual podem ser correctamente valorizados. Os números valem por isso o que valem, e só grosseiramente pode dizer-se que reflectem a realidade económica de um país. Pior ainda: pouco ou nada dizem relativamente à qualidade da informalidade em causa: agregam, tal como o faz o PIB em relação a toda a economia, a informalidade má, a boa e a indispensável a uma economia sã e sustentável. O que significa que quando se diz, por exemplo, que em Portugal há demasiada economia informal, um valor por hipótese acima dos 25% (os dados oficiais apontam para um valor próximo dos 27% do PIB ou seja, cerca de 46 mil milhões de euros que anualmente escapam à tributação), isso não é necessariamente nem mau nem verdadeiro; há que ter presente e salvaguardar a parte boa e indispensável dessa informalidade, a parte que, por infeliz coincidência (ou para alguns talvez não), é também a mais fraca ou seja, a que fiscalmente é mais fácil de atacar.

Por outro lado, a numerologia agregadora, estatal e economista, permite manter a eterna dúvida sobre o real significado do elevado peso da economia informal, e que pode até ser bom sinal; sinal por exemplo de que o inconsciente colectivo dos portugueses guarda consigo algo de valioso; algo que Agostinho da Silva decifrava: que o único objectivo moralmente aceitável da economia é o de suprimir a necessidade do trabalho humano, para tal fomentando a gratuitidade e a dignidade do viver colectivo. Ou seja, o contrário precisamente do que ela faz, com a providencial assistência do Estado. Há o risco, como disse anteriormente, de o pastor-Leviatã, ameaçado pela fome e habituado a uma vida faustosa, não hesitar em comer as próprias ovelhas. De uma forma ou de outra foi aquilo que, podendo, sempre fez quando se viu encurralado. O mal, ao que parece, é hoje geral, e é notório o esforço estatístico-económico para o tentar relativizar, nomeadamnte por via das análises comparadas. Mas talvez neste capítulo da informalidade económica, tal como reconhecidamente no da improvisação e da crónica falta de pontualidade, os portuguses estejam à frente de qualquer coisa sem o saberem, e sejam por isso alvo das invejas e inquietações de burocratas que falam em nome de “Bruxelas”, “Berlim”, “Lisboa”, etc. Era agora preciso perceber exactamente do quê estamos à frente, separar o trigo do joio e saber com quem podemos realmente contar nessa caminhada pelo futuro que a nós deve pertencer. Se não pudermos ou, pior ainda, se não quisermos saber e compreender, e ajudar também os outros a fazê-lo, é provável que uma vez mais o pior aconteça; que a culpa permaneça o pilar e motor da cultura que tem sido, aos olhos sempre de uma liberdade vencida. Agostinho sabia haver uma dívida histórica da cultura para com o escravo humano, e que essa dívida, que a cultura tardava em saldar – e que continua a aumentar, sob o olhar cúmplice de economistas e políticos – teria de ser paga mais cedo ou mais tarde, porque de outra maneira a cultura acabaria por não ter mais como justificar-se moralmente. O saldar da dívida – que era a libertação desse escravo – podia demorar mais ou menos tempo, ser um processo mais ou menos difícil, penoso ou violento, mas era para ele algo inevitável: era a conditio sine qua non da cultura.



Valdemar J. Rodrigues

Sintra, Lua Quase Cheia de Maio de 2016

terça-feira, 10 de maio de 2016

Da dívida da "cultura"


Fonte: aqui


O velho problema da subsidiariedade começa na concepção, pois é a "esfera superior" ou soberana que, com o intuito de que a lei - ou a mensagem - chegue a toda a parte, define a cada época e em cada circunstância o domínio de competências das "esferas inferiores" ou subsidiárias. A técnica, porém, não cessa de evoluir; a mesma técnica que criou as estradas e as pontes, as naus e os intrumentos de navegação, as armas e os satélites artificiais, que pemitiram a expansão e intensificação da "ideia" presente na "esfera superior". Ainda que esta vá mudando, a sua intenção parece-me ser sempre a mesma: a de imperar. Não vejo nenhum nenhum "freio" eficaz capaz de evitar que a "esfera superior" invada ou esvazie de competências as esferas inferiores, desde que tecnicamente se sinta preparada, ou equipada, para o fazer. Tal como não vejo nenhum Estado cuja ambição não passe por tornar-se omnisciente e omnipresente, além de omnipotente e eterno, isto claro está se não houver freios internos ou forças externas capazes de o refrear nessa ambição olímpica. Poderia hoje perguntar-se: para que precisa um Estado de uma "língua oficial", de um "sistema educativo" com educadores profissionais ou de um "sistema de justiça" senão para se auto-perpetuar na progressiva realização daquelas ambições? Concluindo: a subsidiariedade parece estar hoje, tal como no passado esteve muitas vezes, ameaçada pela evolução da técnica e, em particular, pela tremenda difusão do conhecimento. A dívida histórica da "cultura" para com o escravo humano continua porém a aumentar, com a cumplicidade das universidades e do "sistema educativo", e sem que se veja claramente o querer saldá-la das "esferas superiores". Mas penso que essa dívida, independentemente da vontade política - que é vontade dos "pastores espirituais" enquanto agentes da "cultura" - acabará mais tarde ou mais cedo por ter de ser paga, Desejavelmente sem purgas nem grande quantidade de sangue derramado, como desejaria certamente, para bem da "cultura" ou melhor, para salvação do seu lado bom, o visionário Agostinho da Silva.

Valdemar J. Rodrigues

Sintra, em Lua Crescente de Maio frio e chuvoso de 2016

terça-feira, 26 de abril de 2016

Nada em excesso! Ou...

... nas palavras sábias da minha avó Ilda Correia, «Tudo o que é demais é moléstia!»

Foto: daqui

O segredo da máxima «Nada em excesso!» - μηδέν άγαν - que, segundo Platão, estava grafada no templo de Apolo, em Delfos, juntamente com outra que dizia «Conhece-te a ti mesmo!», está na compreensão desse "Nada", que não se aplica apenas ao veneno de Paracelso - quando este terá dito sola dosis facit venenum - ou, se quisermos, que não se aplica apenas ao mal ou à coisa má. Pois se fora esse o caso, então esse "Nada" não seria um "Nada": haveria ainda coisas cujo excesso seria aceitável, coisas como a bondade, a sabedoria e a beleza e até, quem sabe, o amor. Nesse caso a máxima grega não poderia ser lida à letra, pois o "Nada" pressuporia um "Nada que fosse mau, feio, falso, impróprio, etc." É claro que para a cultura se tornou mais fácil imaginar o que seja um excesso de mal do que, por exemplo, um excesso de bem, de belo ou de verdadeiro. Aparentemente, tais qualidades nunca são excessivas, e mesmo para Platão e Aristóteles, que tanto amavam o belo e a sabedoria, a máxima até pode parecer contraditória: o que afinal poderia haver de mau ou indesejável no excesso de beleza ou de sabedoria? Sem me alongar demasiado na dialéctica dos contrários, ou na teoria dos extremos, direi apenas que esse "Nada" é mesmo um μηδέν ou seja, um zero. Que o excesso de bondade, por exemplo, é tão inconcebível quanto um excesso de maldade e que, até para a "cultura" não apolínea, a "cultura" do infinito e do infinitesimal que Leibniz, entre outros, ajudou a criar, a ideia de verdade não contempla o respectivo excesso, porquanto a "quantidade" de verdade - ou falsidade - que há em 2+2 = 5 é exactamente a mesma que há em 2+2 = 6, isto apesar do "juízo infinitesimal" que tornou possível julgar o primeiro resultado mais "próximo" da verdade  do que o segundo, ou o segundo resultado mais falso ou "carente" de verdade do que o primeiro. Não me alongarei mais, portanto.

O que eu quero apenas é deixar aqui, para memória futura, um breve comentário que fiz ontem a um dos muitos textos de opinião do facundo prof. Viriato Soromenho Marques, artigo cuja matéria só ilustrativamente me interessa, intitulado Tarefa inacabada.  Sendo curto, o comentário que fiz sintetiza na perfeição o meu manifesto contra o excesso de idealismo; contra aquilo que Borges, na sua inconfundível linguagem, chamou de «panteísmo idealista». Manifesto que faço em nome daquela máxima apolínea que a sabedoria da minha querida avó Ilda tão bem soube conservar e me transmitiu na citada forma. Aí vai então:

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Na paragem do autocarro, a vinda ou não vinda do autocarro depende da força do nosso acreditar, até porque o autocarro é, na linguagem de Borges, um Ur, ou seja, um objecto produzido unicamente pela esperança. Contudo, parece haver demasiados materialistas descrentes, para desgosto de Berkeley. Mas Tlon tem a solução: basta não os desejar. Se a sociedade "desmaterializada" e "descarbonizada" vencer, como o Prof. Soromenho Marques decerto tanto anseia, bastar-lhe-á não desejar pessimistas para que eles simplesmente deixem de existir. É óbvio que o pensar neles ou o falar deles não é o mesmo que desejá-los, mas não o fazer ajuda muito: ninguém deseja viver com o desconhecido ou amar alguém de quem nunca ouviu falar. Há pois que resistir à estranha necessidade dos contrários, que Heraclito tão bem conhecia. Há que transformar positivamente a criatura humana. Só então a "humanidade" realizará o seu projecto, o seu panteísmo idealista e a sua Orbis Tertius. E assim alcançará finalmente as tão desejadas harmonia e sustentabilidade. 

Valdemar J. Rodrigues, terceira Lua de Abril de 2016

Nota: a referência do Borges citado é a seguinte: Borges, J.L. (1983 [1968]) – Tlon, Uqbar, Orbis Tertius. In: Maria da Piedade M. Ferreira (trad.) Jorge Luís Borges - Nova antologia pessoal, pp. 89-104 . Lisboa: Difel