quarta-feira, 6 de julho de 2016

Série Fábulas de Esopo II - A Gralha e os Pavões


Uma Gralha pediu emprestadas penas de pavão e, vestindo-se com elas, passou a andar com os Pavões, desprezando as outras Gralhas. Porém, passado algum tempo, os Pavões pediram as suas penas de volta, e começaram a depenar a Gralha, arrancando-lhe penas e carne com o bico. A Gralha quis depois regressar para junto das suas antigas companheiras, ainda que com temor e vergonha, e disseram-lhe elas: — Teria sido melhor contentares-te com o que te deu a natureza do que quereres ser o que não és e ficares no estado em que estás, pelada, ferida e envergonhada.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Compreendendo a cultura II ou, Da pirâmide da hierarquia

Afinal, quem disse que o mandante com mais mandados era o mais livre? E nós, não queremos afinal todos "subir" na hierarquia? Mas já sei: alguém vai dizer que é a velha arenga do Velho do Restelo que Camões cantou. Pois que seja!

E se for para tanto aqui fica:

— "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C'uma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

— "Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios:
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!

— "A que novos desastres determinas
De levar estes reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos, e de minas
D'ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?

Luiz Vaz de Camões, Os Lusíadas, Canto IV, 95-97

sábado, 2 de julho de 2016

Compreendendo a cultura

A propósito da notícia: «ONU afirma que levar crianças à igreja é “violação dos direitos humanos”», publicada aqui e difundida nas redes sociais, fiz o seguinte comentário na página do Facebbok da Associação Agostinho da Silva, ao post na mesma página feito pela Profª Rosalina Gomes, que não conheço pessoalmente, em nome da dita associação:


«Os filhos não escolhem racionalmente pai, mãe, nacionalidade, etc. Isso que a ONU faz, se fosse como a notícia diz, não se distinguiria de um crime contra a mesma "humanidade" que a ONU se diz empenhada em defender... pela mesma ordem de ideias, e seguindo a mesma lógica de pensamento, as pessoas devia ser proibidas de ter religião, ou ter qualquer imagem ou símbolo religioso em suas casas. Um colossal disparate, portanto, em nome de uma falsa racionalidade "doutoral"... a mesma que se senta na cátedra ou seja, na cadeira do papa... E já agora, o que pensaria disso Agostinho da Silva? Não será abuso ligá-lo a tais ideias que ele jamais defendeu ou difundiu

Depois, perante ao gáudio da senhora com a medida da ONU, e a sua exaltação de uma «Soberania no corpo e na alma!», chamei-lhe à atenção: 

«E quando estará a alma pronta a exercer a soberania sobre si mesma? Depois de se ter doutorado ou pós-doutorado? A senhora será que não vê que essa soberania de que fala significa auto-governo? Significa o fim daquilo a que chamamos cultura ou civilização? Significa reconhecer que todo o seu percurso académico se baseou no erro de acreditar que as pessoas, e em especial os mais jovens, necessitam sempre de guia ou orientação espiritual? Errou Zeus quando, segundo Platão, enviou Hermes aos homens para que se respeitassem uns aos outros e pudesse assim haver entre eles a Justiça de que Epimeteu e o irmão se haviam esquecido quando os criaram?» 

Ora, o mais estranho é que a senhora, que faz questão que a tratem por «Professora doutora», preferiu ignorar os meus comentários. Das duas uma: ou consentiu neles, e temeu dar-me publicamente razão, algo que talvez ache que poria em causa a sua autoridade ou reputação, ou não consentiu mas não se dignou explicar porquê. Será este mais um daqueles exemplos de autoridade que não é autoridade?

da autoridade

A autoridade que se furta ao diálogo respeituoso por temer perder a autoridade não é autoridade. É, quando muito, o autor humano de alguma coisa.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Questões de linguagem ou, Da lei - cultural - da inclusão assimétrica

Começo por confessar que não consegui descobrir a lógica do não emprego do artigo "o" nas habituais referências que se fazem a(o) Portugal. Dá-me ideia de que se dizemos a Alemenha ou a França também deveríamos dizer o Portugal, tal qual dizemos o Reino Unido, o Brasil ou o Paraguai. Apesar da dúvida, que até hoje permanece insolúvel no meu espírito, parece-me claro que uma coisa é, por exemplo, a Alemanha, o Reino Unido ou o Portugal, e outra, bem diferente, os alemães, os portugueses e... os britânicos. Por alguma razão que não averiguei devidamente o gentílico reinunidenses não foi o escolhido. 

E porque são estas questões de linguagem tão cruciais? Ora, por exemplo, porque quando o Portugal se ausenta e vai ao estrangeiro jogar à bola não são os portugueses nem é o Portugal que o fazem, isto apesar de o dizer da linguagem afirmar o contrário ou seja, que é isso que acontece. Foi essa ilusão cultural que no passado tornou possíveis as grandes empresas de guerra dos Estados, de modo que quando, por exemplo, o Portugal entrava em guerra, todos os portugueses e portuguesas entravam em guerra, no sentido em que eram de uma forma ou de outra mobilizados para ela. Quanto ao inimigo, se fosse por exemplo a Castela (outro caso de não uso do artigo, desta vez no feminino) isso significava que todos os castelhanos e castelhanas eram de alguma maneira inimigos. Findas as guerras militares de conquista, a guerra manteve-se, militar e económica, e com ela o espírito milenar de inclusão assimétrica da cultura. Mais prosaica, dir-se-á, é a dívida do Portugal, da Alemanha, etc., que, por ser pública, é de todos e, sem ponderação, de cada um dos portugueses e das portuguesas, alemães e alemãs, etc. Tal como o PIB per capita ou as emissões do Carbono fóssil, causadoras do aquecimento global e da alteração climática, são do Portugal, da Alemanha, etc., na medida em que são, em abstracto e sem ponderação, de todos e cada um dos portugueses, alemães, etc., até mesmo daqueles que nunca foram proprietários de refinarias ou companhias petrolíferas, e até daqueles que nunca tiveram automóvel e sempre andaram de bicicleta. E isto tudo apesar da globalização e dos mercados transnacionais que regem na economia global. É assim porque, graças à ilusão cultural proporcionada e difundida pela linguagem, todos são levados a pagar pelo prejuízo que só alguns causam e, quando se trata do benefício, cada um recebe apenas a sua dose de orgulho, e eventualmente uma ou outra migalha sempre muito bem ponderada pelo mérito, pelo esforço ou pela sorte apostadora. É claro que há sempre em qualquer mobilização do "nós" um pequeno grupo de "patriotas" cujo "ser" excepcional justifica que entre si repartam o grosso dos benefícios que há para repartir.

É vincadamente assim quando o clube vence ou perde um jogo, pois todos os envolvidos ganham ou perdem financeiramnte com isso à excepção dos adeptos que, enquanto "praticantes", é seguro que perdem sempre: além do tempo, o dinheiro das quotas e dos bilhetes. Já quando o clube ganha, é certo que recebem uma dose extra de orgulho por pertencerem ao clube e vestirem as suas cores. (Além disso, todos os envolvidos à excepção dos adeptos praticantes e dos dirigentes do clube podem mudar de clube, mas essa seria uma outra história.)

A história aqui tem a ver com ganhos e perdas para todos e cada um sempre que há mobilizações do "nós" colectivo. Veja-se, por exemplo, o caso do sistema financeiro que, apesar da sua evidente transnacionalidade e globalização, continua a ser do Portugal, da Alemanha, dos Estados Unidos da América, etc. e isso unicamente para que, em caso de bancarrota, todos paguem pelo mal que alguns causaram, e do qual grandemente beneficiaram. Quanto aos dividendos que o "sistema financeiro nacional" proporcionou e proporciona, só alguns têm direito a eles, fruto do mérito, do esforço, da sorte apostadora, para além do peso accionista. A técnica da ilusão assimetricamente inclusiva é tão velha que é estranho alguém chegar à idade adulta sem dar por ela e sem saber o que ela geralmente significa. É caso para perguntar: o que andará a escola a fazer? Ora, provavelmente a ensiná-la para assegurar que se mantém. As disciplinas do direito, da história e da economia são grandemente responsáveis pela perpetuação da ilusão, sem a qual acreditam que a cultura não pode subsistir. E a ilusão, com rédea solta e altamente patrocinada pela escola da cultura, permite sem assombro dizer e escrever coisas tão fantásticas quanto esta: «Sei que dificilmente alguém ganha a Portugal», isto a propósito do futebol e sem que se dê conta de que Fernando Santos, ele próprio vítima da ilusão - ou talvez comprometido com ela - está a falar apenas de uma «selecção masculina de jogadores de futebol de 11 com a nacionalidade portuguesa», a qual, talvez sem o querer e com a complacência jornalística, confunde simultaneamente com o Portugal e com os portugueses e as portuguesas (estas, em particular, deviam sentir estranheza por não estarem representadas naquilo que se diz ser uma "selecção nacional", mas o facto de não sentirem estranheza só comprova o poder e a eficácia da ilusão), naquilo que dir-se-ia tratar-se de uma ilusão derivada ou de segunda ordem. 

Mas o pior de tudo é ainda a persistência na "cultura" de criaturas que acham que quem repara na ilusão é porque não é patriota; é porque é de direita ou de uma extremidade política; é porque não é amigo do povo, é porque, enfim, é um porco, um racista de merda .. Sim, desconheço completamente quem seja o presumível Alexandre não sei das quantas, tal como ele, seguramente, me desconhece. E sim, preocupam-me os excessos e a violência verbal que se vêm tornando tão habituais nas redes sociais e nas caixas de comentários dos jornais. Pois talvez indiquem a emergência do velho nazismo cultural - ou seja, a emergência de vontades colectivas que vêem com interesse a eliminação dos seres humanos excedentários, inúteis ou supérfluos - destarte também se tornou comum a referência a seres ilegais e a seres tóxicos - seres cuja permanência no mundo tais vontades vêem como uma ameaça para si e para o mundo.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Momento de humor

Acho incrível haver "selecções nacionais" compostas só de homens, sem atenção da "União Europeia" pela manifesta desigualdade de género, e sem a denúncia e o bloqueio feroz da Catarina Martins. Mas pior ainda:


Aguarda-se a qualquer momento a detenção de Fernando Santos por suspeita de crime de sexismo! Em directo e com exclusivo para a CMTV!

Brexit e o nazismo cultural

Brexit: O programa austeritário segue dentro de momentos, doravante agravado, pois com a democracia não se brinca. Quem não aceita a auteridade a bem, aceitá-la-á a mal, e sempre com agravamento. Uma derrota para a criatura jurídica chamada UE, que é também vitória - pírrica, entenda-se - caso a criatura e os seus criadores e cuidadores aproveitem a ocasião, como é provável que façam, para uma vez mais atirar para os povos - e não apenas aos das ilhas britânicas - as culpada austeridade, por quererem chamar a si as rédeas do seu destino. A hipocrisia e o cinismo da criatura, bem conhecido e documentado,  não deixará de rejubilar com o apoio recebido na Escócia e na Irlanda do Norte, pensando já talvez em futuros alargamentos e novos arranjos jurídico-institucionais. Seja como for, não há dúvida de que os próximos anos serão imensamente trabalhosos para os arquitectos do Estado europeu, e em geral para as criaturas rapaces de orçamentos, públicos e privados, que, sob a forma de juristas, gestores, jus-economistas, etc., passaram a enxamear a vida e os negócios do chamado mundo desenvolvido. Tirando eles, que sofrem em abstracto pelo povo, os povos continuarão em concreto a sofrer, para o bem deles. 

Parece-me óbvio que nesta coisa dos referendos devia haver referendos de segunda ordem ou seja, referendos sobre o alcance, oportunidade e significado dos referendos, para que a liberdade das pessoas não ficasse sempre refém do livre-arbítrio das escolhas pré-definidas pela razão de Estado, após ouvido nos oráculos o respectivo segredoO que significa por exemplo «Permanecer na UE» quando verdadeiramente ninguém do povo faz a mínima ideia do que seja a UE, ou do que signifique pertencer-lhe? E não faz por ser ignorante, mas porque a UE tem o espírito e o condão de um grande Estado, projecto de criaturas iluminadas, mantido por iluminados pastores, para que os rebanhos sigam. 

O Brexit foi finalmente uma vitória para o nazismo que, enquanto doença das mentes colectivas, existe seguramente há mais de dois milénios.  O conselho a dar é: resisti, enquanto podeis. Eu cá vou resistindo como posso.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Noite rara de Lua Cheia em Solstício de Verão no Hemisfério Boreal

Foto: aqui. A crer na astronomia e na estatística, só daqui a 70
dos actuais anos da cultura teremos outra noite como esta. 
O que significa que, estatisticamente, 
eu já não verei outra assim.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Os descontentes do povo e os descontentes com o povo

Foto: daqui

Há duas espécies de descontentes em relação ao povo: os descontentes do povo e os descontentes com o povo. Nenhum deles acompanha o povo, e como ambos se auto-exilaram confundem-se facilmente. Mas há que saber diferenciá-los. Os primeiros não acompanham o povo porque o acham débil, presa demasiado fácil daqueles que sabem ser os seus maiores inimigos. Quiseram ser pátria, e por isso se viram forçados a abandonar a pátria dentro da própria pátria, como quem se afasta do pai mantendo-se ao alcance do pai, a poucas palavras de distância, por vezes à distância de um simples gesto de simpatia e acolhimentoSão auto-exilados que se endo-exilaramOs descontentes com o povo, diferentemente, não acompanham o povo porque já desistiram dele; porque algures na história ou no tempo acharam congénita a sua malformação; são racistas, no sentido em que acreditam que a cegueira, tal como a falta de gosto e a indisciplina populares, são coisas naturais e sem remédio. São auto-exilados que renegaram o pai porque sentiram vergonha dele, e porque não quiseram ser pátria, ou melhor, porque não quiseram dar à pátria uma segunda oportunidade, já não se pode acreditar neles, e muito menos contar com eles. Abundam agora mais os segundos do que os primeiros, ou talvez isso seja o que sempre aconteceu. Para desgraça do povo, está-se em ver. 

terça-feira, 14 de junho de 2016

Sigmund Freud (1856-1939)

Foto: aqui

Que tal uma leitura? Isto aqui, por exemplo. Enquanto o ar não aquece e a Lua enche?

terça-feira, 31 de maio de 2016

Do ser-aí do fascismo


Um comentário feito aqui, com louvor ao Jornalista Ferreira Fernandes

«A. Araújo parece-me estar certo; para mim, do que sei e aprendi, o fascismo é a doença mental do pensar colectivo, a neurose agravada que vê barcos salva-vidas com urgência em partir mas com a lotação já esgotada; que vê o mundo saturado de homens maus, inúteis e supérfluos; e que sente necessidade dos tais condomínios para manter o seu bem-estar e a sua segurança. O fascismo é assim a vontade colectiva de partir o mundo em dois, a vontade do puro preto e do puro branco com anulação de todos os tons de cinzento, o puritanismo, a jihad, a cruzada, o holocausto, a purga, etc. Muito bem, pois, FF, a sua exposição. Parece-me perfeitamente certa, além de indispensável aos tempos que correm.»

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Natália Correia (1923-1993)

Foto: aqui

Com a essência das flores mais coniventes
Na formosura, prepara o banho, Lídia.
Os anos murcham e só no corpo sentes
Quente e fagueira a passagem da vida.

Não digas, cética, que a carne é vã e passa
Desfeita em sombra, o negro rio. O Orco
Perséfone raptou rendido à graça.
Talvez no além precises do teu corpo.

Estima-o; e à beleza mais demora
Darão os fados na vida passageira.
Tépida a água, rescenda a musgo e a rosa.
De Paros seja o mármore da banheira.

Nua e rosada imerge na carícia
Emoliente da água perfumada,
E as folhas lassas dos membros espreguiça
Como uma humanizada flor aquática.

Não te esqueças porém de no amavio
Da água verter um brando óleo de malvas
Que te aveluda as coxas e mais brilho
Te dá ao polimento das espáduas.

E saindo do banho como a deusa
Sai, das macias ondas, nacarada,
Ergue-te para o amor, estátua de seda
Toda coberta com pérolas de água.

Por fim veste a camisa mais picante;
Com pó de ouro empoa o teu cabelo.
E vai para a alcova onde o teu amante
Te espera radioso e fiel como um espelho.

Natália Correia, O Armistício, 1985

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A questão geracional e o Portugal democrático

Mais um apontamento breve para memória futura. Em comentário a um texto do prof. João César das Neves no DN com o título "Os filhos da adesão".

«Estimado Professor, não aceito a sua visão agregada do mundo e da sociedade. O "nós" inclusivo que insistentemente usa nas suas crónicas ofende-me, para além do facto de neste artigo em particular me ofender porque ignora completamente a "geração" a que pertenço, enfiando-a no mesmo saco da geração que beneficiou das chamadas "conquistas de Abril", que alguns dizem ter sido mais as "reconquistas de Novembro". Mas adiante. Gosto mais dos textos na primeira pessoa. Tinha 10 anos em 1975, e com a idade que tenho, e a vida que tenho tido, a que geração acha que pertenço: à sua, ou seja, à que nas suas palavras «endividou e bloqueou a economia, deixando um país doente»? Não me meta por favor nesse saco, pois o senhor nasceu em 1957 ou seja, é mais velho do que eu 8 anos, ou seja, tinha 18 anos em 1975, que já era idade para ter juízo e, também, para integrar listas partidárias. Por favor seja honesto e não me tente apagar, e comigo a minha tal "geração" como se ela nunca tivesse existido. Isso de apagar "gerações" é tentar rescrever a história; é uma atitude própria de estalinistas, que julgo não ser o seu caso.» 

Valdemar J. Rodrigues 
19 de Maio de 2016

Da economia informal

Da economia informal – Parte I de II

Quando se fala de economia informal há que notar o ilimitado desse informal, onde cabe qualquer actividade humana não controlada pelo Estado. Ora, o Estado pode achar, por exemplo, que cortar as unhas ou ficar com uma criança à guarda é algo que exige qualificações especializadas, dados os riscos que a actividade envolve para a segurança, o ambiente, etc. As pessoas, que informalmente cortavam as unhas umas às outras, ou os avós, que informalmente ficavam à guarda do neto enquanto os pais iam trabalhar, passam a estar em situação de ilegalidade, a menos que façam as devidas formações e obtenham as obrigatórias licenças. É o que está a acontecer com a agricultura informal: os pequenos agricultores já têm de fazer um curso de formação para poderem adquirir uma embalagem de pesticida. Muitos não o farão, por razões diversas, incluindo a de acharem que o Estado não tem de meter-se onde não é chamado, e que seguramente não é ele quem melhor conhece, ou quer mais bem. aos pés da mulher a quem o companheiro gratuitamente corta as unhas, à criança com quem os avós ficam gratuitamente enquanto a mãe vai com o namorado ao cinema, ou à nesga de terra há muito cultivada para sustento da família. O facto de haver gratuitidade e trocas de bens e serviços sem intermediação do dinheiro – quando a troca não é possível no momento, a memória sempre funcionou como reserva de valor – é um benefício a considerar. Se há bancos bons e maus, certamente também haverá economia informal boa e má. A má passa pelos negócios das sociedades offshore, pela lavagem de capitais que, por exemplo, os negócios do futebol propiciam; pela excessiva informalidade com que às vezes o Estado trata dos negócios públicos, pela corrupção, etc. Para não dar tiros nos pés, o povo deve pois precaver-se contra as cruzadas do Leviatã contra a economia informal, em que o “informal” aparece como o mal a combater. Porque não há só uma economia informal boa: há também uma economia informal absolutamente necessária para a sustentabilidade e o bom funcionamento de qualquer sociedade humana. É a ela que se deve o amortecimento do impacto social dos históricos empreendimentos do Leviatã.

É normal os economistas reconhecerem, baseando-se por exemplo na análise de Pareto, a necessidade de alguma informalidade na economia. Presos que estão aos números – e muitos à crença de que nada há melhor do que eles, os números, para analisar e representar a economia – asseveram, por exemplo, que se a economia “paralela” descer abaixo dos 15% do PIB a economia estagna, ou que se subir para lá dos 25% o sistema fiscal corre o risco de colapsar. São análises úteis, potencialmente moderadoras do devorismo estatal. Mas são-no apenas potencialmente, pois têm limitações que os governos e as agências inter-governamentais podem não querer reconhecer – e geralmente não reconhecem. O que significa a persistência do risco de que o pastor-Leviatã, ameaçado pela fome, coma as próprias ovelhas, o que neste caso significa tanto formalizar quanto consentir na informalidade da economia para lá do que deve, para tal manipulando a seu favor, se o deixarem, os números e as análises económicas. A primeira das limitações advém do conceito de economia paralela, que muitos economistas e políticos preferem ao de economia informal (na prática, tomam-nos por equivalentes). Tal conceito sugere que a actividade informal tem geralmente paralelo na economia formal, e é a partir desse paralelo – e aqui tem-se a segunda das limitações – que os economistas valorizam monetariamnte os bens e serviços produzidos na economia paralela.

Da economia informal – Parte II de II

A metodologia de avaliação do peso da economia informal tem pois, pelo menos, duas grandes limitações: por um lado parte do princípio de que a actividade informal tem paralelo na economia formal capaz de proporcionar a mesma utilidade, satisfação, etc. e, por outro, assume que os bens e serviços dessa actividade têm valor de mercado, valor com base no qual podem ser correctamente valorizados. Os números valem por isso o que valem, e só grosseiramente pode dizer-se que reflectem a realidade económica de um país. Pior ainda: pouco ou nada dizem relativamente à qualidade da informalidade em causa: agregam, tal como o faz o PIB em relação a toda a economia, a informalidade má, a boa e a indispensável a uma economia sã e sustentável. O que significa que quando se diz, por exemplo, que em Portugal há demasiada economia informal, um valor por hipótese acima dos 25% (os dados oficiais apontam para um valor próximo dos 27% do PIB ou seja, cerca de 46 mil milhões de euros que anualmente escapam à tributação), isso não é necessariamente nem mau nem verdadeiro; há que ter presente e salvaguardar a parte boa e indispensável dessa informalidade, a parte que, por infeliz coincidência (ou para alguns talvez não), é também a mais fraca ou seja, a que fiscalmente é mais fácil de atacar.

Por outro lado, a numerologia agregadora, estatal e economista, permite manter a eterna dúvida sobre o real significado do elevado peso da economia informal, e que pode até ser bom sinal; sinal por exemplo de que o inconsciente colectivo dos portugueses guarda consigo algo de valioso; algo que Agostinho da Silva decifrava: que o único objectivo moralmente aceitável da economia é o de suprimir a necessidade do trabalho humano, para tal fomentando a gratuitidade e a dignidade do viver colectivo. Ou seja, o contrário precisamente do que ela faz, com a providencial assistência do Estado. Há o risco, como disse anteriormente, de o pastor-Leviatã, ameaçado pela fome e habituado a uma vida faustosa, não hesitar em comer as próprias ovelhas. De uma forma ou de outra foi aquilo que, podendo, sempre fez quando se viu encurralado. O mal, ao que parece, é hoje geral, e é notório o esforço estatístico-económico para o tentar relativizar, nomeadamnte por via das análises comparadas. Mas talvez neste capítulo da informalidade económica, tal como reconhecidamente no da improvisação e da crónica falta de pontualidade, os portuguses estejam à frente de qualquer coisa sem o saberem, e sejam por isso alvo das invejas e inquietações de burocratas que falam em nome de “Bruxelas”, “Berlim”, “Lisboa”, etc. Era agora preciso perceber exactamente do quê estamos à frente, separar o trigo do joio e saber com quem podemos realmente contar nessa caminhada pelo futuro que a nós deve pertencer. Se não pudermos ou, pior ainda, se não quisermos saber e compreender, e ajudar também os outros a fazê-lo, é provável que uma vez mais o pior aconteça; que a culpa permaneça o pilar e motor da cultura que tem sido, aos olhos sempre de uma liberdade vencida. Agostinho sabia haver uma dívida histórica da cultura para com o escravo humano, e que essa dívida, que a cultura tardava em saldar – e que continua a aumentar, sob o olhar cúmplice de economistas e políticos – teria de ser paga mais cedo ou mais tarde, porque de outra maneira a cultura acabaria por não ter mais como justificar-se moralmente. O saldar da dívida – que era a libertação desse escravo – podia demorar mais ou menos tempo, ser um processo mais ou menos difícil, penoso ou violento, mas era para ele algo inevitável: era a conditio sine qua non da cultura.



Valdemar J. Rodrigues

Sintra, Lua Quase Cheia de Maio de 2016

terça-feira, 10 de maio de 2016

Da dívida da "cultura"


Fonte: aqui


O velho problema da subsidiariedade começa na concepção, pois é a "esfera superior" ou soberana que, com o intuito de que a lei - ou a mensagem - chegue a toda a parte, define a cada época e em cada circunstância o domínio de competências das "esferas inferiores" ou subsidiárias. A técnica, porém, não cessa de evoluir; a mesma técnica que criou as estradas e as pontes, as naus e os intrumentos de navegação, as armas e os satélites artificiais, que pemitiram a expansão e intensificação da "ideia" presente na "esfera superior". Ainda que esta vá mudando, a sua intenção parece-me ser sempre a mesma: a de imperar. Não vejo nenhum nenhum "freio" eficaz capaz de evitar que a "esfera superior" invada ou esvazie de competências as esferas inferiores, desde que tecnicamente se sinta preparada, ou equipada, para o fazer. Tal como não vejo nenhum Estado cuja ambição não passe por tornar-se omnisciente e omnipresente, além de omnipotente e eterno, isto claro está se não houver freios internos ou forças externas capazes de o refrear nessa ambição olímpica. Poderia hoje perguntar-se: para que precisa um Estado de uma "língua oficial", de um "sistema educativo" com educadores profissionais ou de um "sistema de justiça" senão para se auto-perpetuar na progressiva realização daquelas ambições? Concluindo: a subsidiariedade parece estar hoje, tal como no passado esteve muitas vezes, ameaçada pela evolução da técnica e, em particular, pela tremenda difusão do conhecimento. A dívida histórica da "cultura" para com o escravo humano continua porém a aumentar, com a cumplicidade das universidades e do "sistema educativo", e sem que se veja claramente o querer saldá-la das "esferas superiores". Mas penso que essa dívida, independentemente da vontade política - que é vontade dos "pastores espirituais" enquanto agentes da "cultura" - acabará mais tarde ou mais cedo por ter de ser paga, Desejavelmente sem purgas nem grande quantidade de sangue derramado, como desejaria certamente, para bem da "cultura" ou melhor, para salvação do seu lado bom, o visionário Agostinho da Silva.

Valdemar J. Rodrigues

Sintra, em Lua Crescente de Maio frio e chuvoso de 2016

terça-feira, 26 de abril de 2016

Nada em excesso! Ou...

... nas palavras sábias da minha avó Ilda Correia, «Tudo o que é demais é moléstia!»

Foto: daqui

O segredo da máxima «Nada em excesso!» - μηδέν άγαν - que, segundo Platão, estava grafada no templo de Apolo, em Delfos, juntamente com outra que dizia «Conhece-te a ti mesmo!», está na compreensão desse "Nada", que não se aplica apenas ao veneno de Paracelso - quando este terá dito sola dosis facit venenum - ou, se quisermos, que não se aplica apenas ao mal ou à coisa má. Pois se fora esse o caso, então esse "Nada" não seria um "Nada": haveria ainda coisas cujo excesso seria aceitável, coisas como a bondade, a sabedoria e a beleza e até, quem sabe, o amor. Nesse caso a máxima grega não poderia ser lida à letra, pois o "Nada" pressuporia um "Nada que fosse mau, feio, falso, impróprio, etc." É claro que para a cultura se tornou mais fácil imaginar o que seja um excesso de mal do que, por exemplo, um excesso de bem, de belo ou de verdadeiro. Aparentemente, tais qualidades nunca são excessivas, e mesmo para Platão e Aristóteles, que tanto amavam o belo e a sabedoria, a máxima até pode parecer contraditória: o que afinal poderia haver de mau ou indesejável no excesso de beleza ou de sabedoria? Sem me alongar demasiado na dialéctica dos contrários, ou na teoria dos extremos, direi apenas que esse "Nada" é mesmo um μηδέν ou seja, um zero. Que o excesso de bondade, por exemplo, é tão inconcebível quanto um excesso de maldade e que, até para a "cultura" não apolínea, a "cultura" do infinito e do infinitesimal que Leibniz, entre outros, ajudou a criar, a ideia de verdade não contempla o respectivo excesso, porquanto a "quantidade" de verdade - ou falsidade - que há em 2+2 = 5 é exactamente a mesma que há em 2+2 = 6, isto apesar do "juízo infinitesimal" que tornou possível julgar o primeiro resultado mais "próximo" da verdade  do que o segundo, ou o segundo resultado mais falso ou "carente" de verdade do que o primeiro. Não me alongarei mais, portanto.

O que eu quero apenas é deixar aqui, para memória futura, um breve comentário que fiz ontem a um dos muitos textos de opinião do facundo prof. Viriato Soromenho Marques, artigo cuja matéria só ilustrativamente me interessa, intitulado Tarefa inacabada.  Sendo curto, o comentário que fiz sintetiza na perfeição o meu manifesto contra o excesso de idealismo; contra aquilo que Borges, na sua inconfundível linguagem, chamou de «panteísmo idealista». Manifesto que faço em nome daquela máxima apolínea que a sabedoria da minha querida avó Ilda tão bem soube conservar e me transmitiu na citada forma. Aí vai então:

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Na paragem do autocarro, a vinda ou não vinda do autocarro depende da força do nosso acreditar, até porque o autocarro é, na linguagem de Borges, um Ur, ou seja, um objecto produzido unicamente pela esperança. Contudo, parece haver demasiados materialistas descrentes, para desgosto de Berkeley. Mas Tlon tem a solução: basta não os desejar. Se a sociedade "desmaterializada" e "descarbonizada" vencer, como o Prof. Soromenho Marques decerto tanto anseia, bastar-lhe-á não desejar pessimistas para que eles simplesmente deixem de existir. É óbvio que o pensar neles ou o falar deles não é o mesmo que desejá-los, mas não o fazer ajuda muito: ninguém deseja viver com o desconhecido ou amar alguém de quem nunca ouviu falar. Há pois que resistir à estranha necessidade dos contrários, que Heraclito tão bem conhecia. Há que transformar positivamente a criatura humana. Só então a "humanidade" realizará o seu projecto, o seu panteísmo idealista e a sua Orbis Tertius. E assim alcançará finalmente as tão desejadas harmonia e sustentabilidade. 

Valdemar J. Rodrigues, terceira Lua de Abril de 2016

Nota: a referência do Borges citado é a seguinte: Borges, J.L. (1983 [1968]) – Tlon, Uqbar, Orbis Tertius. In: Maria da Piedade M. Ferreira (trad.) Jorge Luís Borges - Nova antologia pessoal, pp. 89-104 . Lisboa: Difel

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Que Abril seja, e que seja sempre que um homem quiser. E uma mulher, já agora!


Os "pessimistas" dizem isto e eu, como "pessimista não-estrutural" que sou - não é com facilidade que cedo ao fatalismo ou, se se preferir, o fado não me apraz exageradamente -  concordo com eles.

Os "optimistas", que são muitos e porventura a maioria, acham que podia ser pior. Há um certo "optimismo" com o qual é impossível discordar até se estar morto, e mesmo depois de morto, se pudéssemos falar com tal naipe de "optimistas estruturais", eles não hesitariam em fazer-nos notar a sorte que temos por estarmos mortos, porque a vida é bem mais dolorosa e cheia de trabalhos. Há uma certa "ditadura do optimismo" que careceria talvez de mais atenção científica, da psicologia social por exemplo.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Os cães ladram e passam, mas a caravana fica!


Foto: daqui

Há petróleo em Ajubarrota! 

Leio com aquiescência e sem qualquer obstrução mental as notícias da minha terra. Por vezes sobressalto-me com uma ou outra, mas logo digo para mim mesmo: não escreverás sobre isso! Escrever sobre mundanidades é hoje - sempre o terá sido? - um gesto de alívio absolutamente sujo e inútil. O tronco inabalável das macieiras cobre-se de moscas e fede, mas as macieiras não mudam. Os cães ladram e passam, mas a caravana fica. Incapaz de conter-me, venho mais uma vez incomodar os senhores passageiros, para falar-lhes do absurdo que perscrutei em duas notícias recentes. Um absurdo que não consegui resolver, por mais que tentasse, e creiam que tentei arduamente. Numa delas, datada de Julho de 2010, leio que “Alcobaça pode adoptar carro ecológico FUTI para tornar o concelho mais sustentável”. Magnífico! Embora subsistam bastantes dúvidas quanto à eficácia destes veículos para a redução das emissões de gases com efeito de estufa, dado o estado actual do parque electroprodutor nacional, ainda fortemente dependente da queima de combustíveis fósseis para a produção de electricidade, o que a notícia transparece é, sobretudo, a sensibilidade das entidades envolvidas, públicas e privadas, para as questões relacionadas com o aquecimento global e a alteração climática. Em particular, a autarquia de Alcobaça emerge na notícia como parte interessada em promover uma economia local menos dependente do carbono, facto que constitui, nos dias que correm, um louvável desígnio. A minha alma fica então recolhidamente feliz: é bom que haja desígnios locais, aquilo a que o novo linguajar dá o nome de “estratégias locais de desenvolvimento”. E Alcobaça, pelos vistos, finalmente tem-nas! Mas eis senão quando, na varredura periódica que faço à imprensa deste jardim à beira-mar plantado, me dou com estoutra notícia, por sinal esdrúxula visto não se perceber bem qual a sua verdadeira intenção (isto acontece com muitas das “notícias pagas” que invadem diariamente a nossa paz possível): “Petróleo no Oeste só no próximo ano”. Publicada no jornal Correio da Manhã do dia 20 de Setembro de 2010, nela podia ler-se que a empresa Mohave Oil & Gas, que previa ter começado em Maio de 2010 a perfuração dos primeiros poços de petróleo em Aljubarrota, só iria começar essa exploração em 2011. É claro que, ao ler isto, as primeiras pessoas em quem pensei foram o Sr. Primeiro-ministro e o Sr. Presidente da Câmara Municipal de Alcobaça, duas pessoas empenhadas na luta contra o aquecimento global, e que iriam decerto manifestar imediatamente o seu repúdio perante este atentado carbónico da Mohave Oil & Gas e dos seus parceiros de negócio (o inexcedível Joe Berardo falou por deles) de, não só querer prolongar a indesejável dependência fóssil da economia portuguesa e europeia, devastadora desse insubstituível bem que é o clima, como ainda por cima ousar transformar uma parte importante do território de Alcobaça (e Torres Vedras) num vasto campo de exploração petrolífera! Ora, e agora perdoem-me os estimados passageiros e passageiras dessa carruagem que não anda e cuja paz me desgosta imenso ter de perturbar, mas a pura verdade é a seguinte: não vi até agora nem uma única palavra do governo ou da autarquia sobre o assunto, e muito menos referindo-se-lhe com a negatividade que a situação claramente exigiria. Terá escapado esta notícia aos Srs. Primeiro-ministro e Presidente da Câmara, e aos seus sempre vigilantes assessores? Terá escapado também às oposições? Ou será que a primeira das notícias era bluff, um ardil para ajudar o empresário António Febra a vender alguns popós eléctricos? Será que o país, e em particular a autarquia de Alcobaça, não tem afinal uma estratégia ambiental consistente? Como não consegui esclarecer-me a mim próprio, e como vou tendo dificuldade crescente em adormecer com absurdos deste género na minha cabeça, infelizmente inúmeros neste país que São Bernardo ajudou a fundar, peço-vos que, por favor, me esclareçam. 

Muito obrigado, e desculpem o incómodo. 

Sintra, 11 de Outubro de 2010, publicado aqui.


sexta-feira, 15 de abril de 2016

Segunda Lua de Abril de 2016, em Magnífico Crescente de Portugal


Petrolíferas memórias... ainda bem frescas no essencial

Mohave Oil & Charity

Valdemar J. Rodrigues

Os tempos correm deformados e céleres, e os nigromantes ao serviço anunciam amanhãs que cantam, sulfurosos. No pasa nada porém tudo acontece, nos bastidores. Recrudesce o reverencial temor e a Realidade fende-se de encontro às águas. A ciência está morta: a verdade pertence aos vencedores. Ansiosamente feliz, ou triste, o povo receia a toda a hora uma espécie de holocausto. Nem repara que as notícias são como bumerangues que continuamente lhes ofuscam a visão e alteram o pensamento. A racionalidade morreu. Pelo céu circulam fadas e duendes, piratas e princesas, e nada se ousa ou estranha, pois estranho é aquilo que não se sabe, ou aquilo que já se esqueceu. Tudo se sabe e espera e tudo se guarda na infinita memória googleana: o ilusionismo é a arte maldosamente bela e eficaz que Houdini tão bem conheceu.

É certo que numa Europa minguante ainda está bem presente o afã de lutar contra o aquecimento global, razão de inúmeras taxas e ecotaxas destinadas a proteger o ambiente e a salvar o planeta da destruição causada pelos humanos. Razão também para novas portagens à entrada das cidades, ou para o agravamento das portagens que já existem. Ora, quanto valem anualmente as taxas ecológicas que recaem directamente sobre os consumidores nacionais de produtos petrolíferos, e quanto valem as licenças, taxas e compensações pagas ao Estado nacional pelas empresas exploradoras dos recursos energéticos de origem fóssil? Seria lógico que tais parcelas fossem semelhantes, pois tão responsáveis pelo aquecimento global são aqueles que consomem os combustíveis fósseis como as corporações que os exploram com licença do Estado. Mas a ilusão é a seguinte: o Estado nacional, tão “empenhado” que anda na sua luta descarbonizadora, faz de vilão e cobra a uns e a outros, como de resto faz com produtos como o tabaco e as bebidas alcoólicas. Lastimando os malefícios que causam ao clima os gases esquentadores, ou à saúde e à segurança rodoviária o fumo do tabaco e o vinho, o Estado é o principal dependente e beneficiário de tais vícios, e não parece! Bela ilusão, portanto. E a União Europeia, que vive à custa dos Estados nacionais e dos seus cidadãos, em vez de definir uma estratégia clara para a exploração dos recursos energéticos não renováveis, faz como os Estados nacionais: vive do vício porque o negócio rende, e bastante.

Volto assim à “eterna” Mohave Oil & Gas Corporation, empresa que há mais de duas décadas realiza a prospecção de gás e petróleo na região Oeste de Portugal, mas que ao fim deste tempo ainda não conseguiu organizar, que eu saiba, nenhum sítio da Internet dando conta, por exemplo, dos seus vários estudos e pesquisas, planos ou programas de actividade. Eis uma lacuna evitável, que como é óbvio em nada beneficia a transparência do projecto. Desta vez foi anunciado em Alcobaça pelo Ministro da Economia um investimento nacional de 230 milhões de euros para extrair 8 mil barris de petróleo por dia. Coisa que, fazendo as contas (a 159 litros/barril de petróleo com uma densidade média de 0,81 kg/l isso dá cerca de 1030 toneladas/dia), justifica o desencadear do necessário processo de Avaliação de Impacte Ambiental do projecto, tal como há muito venho defendendo. A questão é que nada é claro quando se vive num país de ilusões e ilusionistas, na sua maioria de fraco quilate. Como será apresentado este “projecto”? Como um todo ou em projectos parcelares, ou por fases? Quantos furos, e quando, serão testados e postos à exploração? Em que locais exactamente, com que capacidade e fazendo uso de que tecnologias (por exemplo, será ou não empregue o processo de Fracking, ou fratura hidráulica), etc, etc. O governo diz agora ter aprovado um “Plano geral de trabalhos de desenvolvimento e produção de hidrocarbonetos” que lhe terá sido apresentado pela Mohave Oil & Gas. Onde estão os pareceres técnicos da administração sobre tal plano? Irá o “plano” ser sujeito a consulta pública? Aplicar-se-lhe-á a directiva europeia de avaliação ambiental de planos e programas (vulgo avaliação ambiental estratégica)?

Tantos planos, normas, leis e regulamentações europeias e nacionais não chegam, pelos vistos, para atender às questões mais fundamentais do nosso desenvolvimento. Algo de estranho despontaria de toda esta história em torno do “ouro negro” nacional, caso ainda estivéssemos lúcidos e fizéssemos bom uso da razão. Nas fotografias da sessão de “anunciação” da coisa em Alcobaça dói ver, por exemplo, a diferença entre o semblante (e até o simples cuidado na indumentária) das autoridades políticas presentes e o dos emissários das corporações envolvidas no negócio. As primeiras curvadas, com ar solene entre o extasiado e o patético, e os segundos hirtos mas incapazes de esconder um certo ar de enfado. Por esta hora deverá andar – presume-se – o autarca alcobacense com enorme diligência a tratar de rever, mais uma vez, o seu Plano Director Municipal, ajustando-o à nova “realidade petrolífera” concelhia, realidade essa que deverá, como todos vaticinam, servir de “alavanca para o desenvolvimento local e regional” (um dia, quando recuperarmos a lucidez, vai perceber-se que já só restam alavancas na economia, nada havendo nela de “peso” para levantar). Dói, mas é o espectáculo possível e, portanto, merecido. O país infantilizado e bruto não merece mais do que fábulas com príncipes e princesas, músicas de embalar e histórias da carochinha com muitos pais natais para entreterem as criancinhas. Boa noite, e que a Mohave Oil & Gas tenha piedade de nós, e do ambiente também.

Sintra, 4 de Setembro de 2012

Publicado aqui.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

O paraíso está a ficar sobrelotado...

Há gente a mais no paraíso, conferem os analistas; quem entrou entrou, e vamos ver se tem qualidade suficiente para permanecer a bordo; quem não entrou que tivesse entrado! O navio da história parece estar cheio e com pressa de largar... oxalá não se afunde, como aconteceu ao Titanic...

Foto daqui.

sábado, 9 de abril de 2016

A "cultura" e o aquecimento global

Esta breve nota vem a propósito disto e disto , e ficou lá postado com a devida identificação da proveniência

Se o Estado tem alguma coisa a ganhar com a poluição então é porque o "povo" - aceitando o dogma indemonstrável de Estado = povo - tem alguma coisa a ganhar com a poluição. Chamemos então A a essa "alguma coisa", um benefício cujos prejuízos serão B. Então o Estado sabe que A é maior que B, pois de outra forma não haveria justificação racional para licenciar a prospecção cuja finalidade é a exploração dos hidrocarbonetos de origem fóssil responsáveis pelas alterações climáticas. A pergunta é: onde estão os Estudos técnicos que demonstram que A > B? Agora pensemos num Estado mundial seguindo este exemplo, que pelos vistos é regra e está conforme com as leis e o direito internacional, ou seja, um Estado-mundo agindo com o conhecimento de que a exploração de gás e petróleo lhe traz mais benefícios do que prejuízos, a ele que é a população mundial, segundo o notado dogma vigente. (o mesmo seria válido se pensássemos na União Europeia). Então como justificar racionalmente as políticas públicas de ambiente e de luta contra o aquecimento global? E as taxas ambientais e ecológicas que os povos do mundo crescentemente têm de suportar? Era só isto que gostaria de ver esclarecido, para que tudo o resto pudesse começar a ser melhor compreendido...

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Pérolas da "cultura" II - A (re)descoberta da roda

Afirma Pacheco:


José Pacheco Pereira, Abrupto27 Jan. 2016

Caberia ainda perguntar:

Quem é este "nós" que perdeu a independência e a soberania? A quem se refere Pacheco quando fala do povo? Ou melhor: o que entende Pacheco por povo?

Onde estava Pacheco Pereira a 12 de Junho de 1985, quando a criatura jurídica que dá pelo nome de Portugal assinou o tratado de adesão à CEE? 

Onde estava a 7 de Fevereiro de 1992 quando a referida criatura jurídica assinou O Tratado de Maastricht que deu à luz a criatura jurídica maior da União Europeia? 

Por onde andava Pacheco a 13 de Dezembro de 2007 quando a mesma criatura assinou o Tratado de Lisboa? 

E a 2 de março de 2012, quando a mesmíssima criatura assinou o Tratado sobre a Estabilidade, Coordenação e Governação na União Económica e Monetária (TECG), vulgo tratado orçamental ou tratado da austeridade para o "povo"? 

O que saberá o dito "povo" de direito internacional, de direito europeu ou sequer de teoria do direito em geral, para ser responsabilizado pelas assinaturas em seu nome feitas pela criatura iluminada? Ou pelas dívidas que ela em seu nome contraiu? 

Será o "povo" tão responsável quanto os "pastores" iluminados que o levaram ao deserto com promessas de oásis? 

Será o "povo" tão responsável quanto as criaturas iluminadas que em seu nome negociaram e redigiram as constituições e os tratados? 

Pacheco Pereira tem contudo o grande mérito, que merece toda a minha consideração, de dizer o que pensa e como pensa. São muito raros os que o fazem com honestidade e sabedoria, e é isso sem dúvida que o diferencia da maioria dos comentadores políticos. Agora que redescobriu a roda, talvez ele me possa ajudar a compreender melhor a essência do véu que há milénios encobre a criatura, tal como o misterioso mecanismo que a faz mover e a leva a tomar decisões por mim sem o meu consentimento. A história da representatividade deve estar mal contada...

domingo, 3 de abril de 2016

Pérolas da "cultura" I: o desdobramento do Conceito

I. Roubo
II. Furto
III. Desvio
IV. Apropriação indevida
V. Enriquecimento ilícito
VI. Acréscimo patrimonial não justificado
VII. ...

I. Miséria
II. Pobreza
III. Pobreza absoluta
IV. Carência económica
V. Privação material severa
VI...

Dogmas da Fé Económica I - A Mão Invisível

Mão invisível: dogma da fé económica segundo o qual a geração de riqueza só é possível dando trabalho e pagando a empregados, o que assegura a justa distribuição da referida riqueza.